Na esquina, as pessoas conversam.
Falam sobre tudo, sobre todos.
Cogitam qualquer possibilidade,
Alimentam rumores.
Crucifi cam um cidadão em segundos,
Tiram-lhe o escalpo, as vísceras,
Esquartejam seu corpo em boatos
Pelos infi ndos cantos da cidade.
Das esquinas, as pessoas se dispersam,
Caminham tranquilas pelas ruas,
Pelas casas, pelas vidas alheias.
Mesmo faladas, julgadas, condenadas,
Compartilham os mesmos pratos,
Os mesmos bosques, os mesmos fardos.
De júri a réu e vice-versa,
A valsa continua viva.
Falar da vida, desde que não da minha.
Admitir um erro não seria justiça,
Os erros são perdoados, se são nossos,
Se não chegaram ao gosto dos falares.
Hão de queimar no fogo, mesmo inocentes,
Aqueles que se permitirem uma vida rija.
Mal descuidam, espreitam-lhe os passos,
Destemidos soldados da língua.