Mário Nhardes nasceu Rusimário Bernardes aos dez de outubro do tricampeonato mundial de futebol do Brasil. Mineiro de Patos de Minas, não conheceu sua avó paterna falecida um dia antes de seu nascimento. O parto foi complicado, mas, insistente, quis viver a vida e vingou.
Criança enérgica e comunicativa se fechou numa timidez sem fim, talvez motivada pela perda do pai quando ainda tinha cinco anos de idade. Ainda bem que tinha Vitória, sua mãe. Mãe, pai, amiga, exemplo, dedicação, sacrifício, luta e paixão aos filhos, sua mãe curou as feridas e influenciou definitivamente em seu futuro.
Tímido e introspectivo voltou-se para a observação da vida em sua mais simples face, o cotidiano. Esta prática o tornou sensível aos instantes da vida e as transformações mínimas que passam geralmente despercebidas. Emotivo inveterado chora até com comercial de TV. Sempre foi um admirador das lágrimas e seu poder depurativo.
Aos quinze anos ganhou um violão de sua mãe e iniciou sozinho, seu aprendizado nesse instrumento. Nunca terminou, na verdade nem sabe, ao certo, se um dia começou, pois não possui nenhum domínio sobre o instrumento. Porém o violão foi um amigo fiel nos momentos mais difíceis. O violão, a improvisação e as lágrimas foram por muito tempo um elixir que utilizou para se livrar dos momentos mais pesados em sua vida.
Aos quatorze anos, na varanda de casa, na presença de sua mãe compõe Telefonema. Este foi o poema que marcou o princípio de tudo. Telefonema foi muito elogiado no colégio onde estudava e teve certa aceitação pelos colegas. Isso foi mais do que um motivo para continuar a escrever.
A adolescência aflorava e entre espinhas, futebol, estudos e raras meninas, escrevia. Outro poema que surgiu nesse momento foi Minha Janela. A solidão de um garoto preso na timidez e seu mundo retratado na agonia de sua prisão. Nunca se nomeou como uma pessoa triste, mas que viveu momentos tristes.
Teve vários amores platônicos. Parou de escrever. O futuro o atormentava. O que ser, o que fazer, o que estudar. Fez um curso técnico em Agropecuária para fugir das ciências exatas e ficar mais próximo da natureza, mas nunca seguiu a profissão. Do curso restaram apenas as amizades e lembranças de ricos momentos de afeto, risadas e companheirismo. Nessa época se mostrou um cômico, engraçado, divertido e ótima companhia. No curso, fez amigos para a vida inteira.
Conheceu sua futura esposa, casou-se e, para manter sua família, foi trabalhar em uma empresa multinacional. Nessa época para sobreviver aos duros testes diários do processo fabril, perdeu humor, tornou-se uma pessoa séria. Séria demais. Teve um casal de filhos que foram o elixir desses dias difíceis.
Para manter-se na empresa precisou fazer um curso superior. Escolheu História. Isso mudou definitivamente sua vida. Voltou a escrever poesias e o humor retornou. No período de faculdade escreveu a maior parte das poesias que estão em seu primeiro livro.
Aos trinta e quatro anos é desligado da empresa em que viveu boa parte de sua juventude. Estabeleceu-se em um processo de depressão contida onde apenas ele sabia de sua condição. Procurou manter sua família distante do que ocorria em seu interior. Isso o fez ainda mais introspectivo e recluso. Triste, afastou-se de tudo e de todos. As necessidades diárias consumiram boa parte de suas economias e a proteção da família exigiu uma tomada de decisão. Depois de dois anos parado, voltou a trabalhar e ganhou força a idéia de publicar suas poesias.
A publicação de seu primeiro livro foi um projeto que reuniu um sonho de criança e a possibilidade de se reerguer para a vida. Todo o processo de publicação mostrou-se frustrante e extremamente dispendioso financeiramente e emocionalmente, quase desistiu. Necessitou da ajuda de um amigo de infância para tocar o projeto, arcando com os gastos financeiros em princípio. Aos trinta e nove anos publica Agapantos. Toda expectativa em torno do seu primeiro livro foi marcada por inúmeras provações. Não conseguiu vender os exemplares que imaginava para cobrir os gastos, não obteve o reconhecimento esperado da família e amigos, não conseguiu despertar o interesse pelos seus versos e sua mensagem em Agapantos mesmo apesar do seu esforço na divulgação do livro.
Mário Nhardes vive os reveses da vida, trabalha no setor privado, experimenta as experiências de ser pai de dois adolescentes e de todo o universo de situações que isso exige dele, reaprende a cada dia a dura lição da convivência conjugal, vende pouquíssimos Agapantos, mas encontra tempo para escrever poesias e tocar alguns de seus projetos utópicos na Internet.